O que leva jovens a cometer atos de extrema violência dentro de instituições de ensino, um ambiente que deveria ser seguro e acolhedor? Recentemente, o caso da menina Alícia Valentina, espancada por colegas na escola pública de Belém do São Francisco, acendeu um alerta sobre a gravidade do problema da violência escolar no Brasil. Alícia, com apenas 11 anos, perdeu a vida em um ato brutal que, segundo relatos, foi motivado pela recusa de envolvimento romântico com um dos agressores. Essa tragédia não é um evento isolado; ela faz parte de um padrão alarmante de violência em escolas brasileiras, com um número crescente de incidentes que superam os principais índices de ataques já registrados entre 2001 e 2025.

A Escalada da Violência nas Escolas

Entre 2001 e 2024, foram identificados 42 episódios de violência extrema em instituições de ensino no Brasil, afetando 43 escolas em todo o país. O aumento destes episódios, com uma triplicação de casos de violência escolar nos últimos dez anos, deve ser encarado com seriedade. A pesquisa da Fapesp revela que esse fenômeno não apenas se tornou mais recorrente, mas também mais diversificado em suas motivações e características. Essa realidade sugere que uma análise superficial dos dados não é suficiente. Precisamos compreender as profundas raízes que alimentam esses atos de violência.

As características dessas violências incluem ataques com intenção de matar e atos focados na discriminação, alimentados por preconceitos de raça ou gênero. É essencial ressaltar que a maioria dos agressores é composta por indivíduos do sexo masculino, e muitos destes ataques são premeditados, com os agressores se armando antes do ato. Enquanto a arma de fogo é frequentemente utilizada, mais da metade dos ataques tem como foco armas cortantes e outros instrumentos improvisados. Isso nos leva a questionar: o que está acontecendo nas escolas que transforma jovens em agressores tão violentos?

Entre as possíveis causas, pesquisadores apontam para uma deterioração de muitos fatores sociais. As pressões sociais que os jovens enfrentam, como a construção de uma masculinidade tóxica, contribuem para a normalização de comportamentos agressivos e até mesmo a aceitação de atos violentos como parte da cultura escolar. Além disso, o despreparo dos educadores e a infraestrutura inadequada das instituições de ensino agravam a situação, criando um ambiente onde a violência provém mais da falta de apoio e orientação do que de uma natureza intrinsecamente maligna dos estudantes.

Os Papéis da Escola e da Comunidade na Prevenção

A responsabilidade pela prevenção da violência escolar não deve recair apenas sobre os educadores; é um problema que requer a ação conjunta de toda a comunidade. Os dados revelam que metade dos casos de violência escolar registrados em 2023 foram de agressão física, seguido de violência psicológica. Isso mostra que a escola é um reflexo da sociedade e, portanto, a mudança deve começar por uma reavaliação das normas sociais e familiares que orientam o comportamento das crianças e adolescentes.

A implementação de políticas de prevenção deve incluir a formação de professores e funcionários em temas de mediação de conflitos, bem como a sensibilização dos alunos sobre respeito e empatia. É preciso promover diálogos abertos nas escolas, onde alunos, professores e a equipe pedagógica possam discutir e resolver conflitos. A falta de comunicação e suporte frequentemente resulta em situações de bullying e agressão que são frequentemente silenciadas apoiadas por uma cultura de medo e insegurança.

Uma abordagem efetiva pode envolver a introdução de programas anti-bullying robustos e bem estruturados. A discussão ativa dos problemas vividos pelos alunos pode servir como um primeiro passo para construir um ambiente escolar saudável. Não podemos esquecer, também, o papel crucial que as redes sociais desempenham na amplificação da violência. O cyberbullying, muitas vezes inibido por uma falta de políticas rigorosas, pode exacerbar a situação ao criar um ambiente de hostilidade em plataformas digitais, que então se arrasta para as interações presenciais.

Refletindo sobre o Futuro da Educação e da Segurança Escolar

O caso de Alícia Valentina é apenas um entre muitos que devemos considerar na análise da violência nas escolas. Essa realidade não pode ser vista como um incidente isolado, mas sim como um sintoma de um problema mais profundo que precisa ser abordado. Quando discutimos sobre segurança nas escolas, não devemos nos limitar a medidas como segurança física e policiamento. Precisamos, sim, investir em estratégias de longo prazo que promovam um ambiente educacional inclusivo, seguro e respeitoso.

Além disso, é fundamental que a legislação evolua para incluir políticas e práticas que combatam efetivamente a violência de forma proativa, e não reativa. As escolas precisam ser espaços onde os alunos sintam que podem ser ouvidos e respeitados, e não onde a competição e a pressão social definiem o que é aceitável em termos de comportamento. O investimento em saúde mental e suporte psicológico deve ser uma prioridade não apenas após um evento traumático, mas como uma medida preventiva.

A reflexão sobre as raízes da violência escolar nos leva a crer que continuar nesse ciclo de reatividade não é suficiente. Se quisermos verdadeiramente evitar tragédias como a de Alícia, devemos esperar um esforço coletivo que vai além do ambiente escolar. É a responsabilidade de todos nós: pais, educadores, comunidade e governo. Portanto, a pergunta que devemos nos fazer é: como podemos criar um futuro para nossos jovens que seja marcado por segurança, empatia e respeito?

Transformar a escola em um espaço seguro não é uma tarefa fácil, mas é uma responsabilidade compartilhada que não podemos ignorar. Devemos, pois, agir com urgência e coragem para enfrentar a violência escolar e construir um ambiente onde todos os envolvidos possam prosperar.