Qual o impacto real da criação de cotas para pessoas trans no processo seletivo da Unicamp? A discussão sobre inclusão social na educação é um tema que, frequentemente, perpassa diferentes esferas de debate, mas raramente toca em questões tão específicas quanto às cotas para a população trans. Recentemente, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) deu um passo significativo ao aprovar a implementação de cotas para pessoas trans, travestis e não-binárias, inserindo essa diversidade no seu processo de seleção para a graduação.
A Proposta de Cotas e Rubricas Adicionais
Compreendendo que a inclusão deve ser uma prioridade na educação, a Unicamp se propôs a reservar um número mínimo de vagas para a população trans em seus cursos de graduação, de forma a aumentar a representatividade e garantir acesso ao ensino superior. O diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), José Alves de Freitas Neto, esclareceu que a criação dessas cotas não afetará as vagas de ampla concorrência, um temor que surgia entre alguns candidatos e suas famílias. Os novos critérios visam garantir que a maioria das vagas para pessoas trans sejam adicionais, ou seja, além das que já estão disponíveis para outros candidatos.
Essas cotas são uma resposta direta à sub-representação de pessoas trans dentro da universitária, especialmente em um país onde as questões de gênero e sexualidade ainda são muito debatidas. Além disso, visam alinhar-se com as diretrizes de direitos humanos praticadas pela Unicamp. Segundo dados da Comvest, no Vestibular 2025, cerca de 279 candidatos se inscreveram com nome social, evidenciando a necessidade de políticas afirmativas que atendam a essa população.
O Processo de Seleção e Combate à Fraude
Para garantir a autenticidade das declarações e a idoneidade do processo, a Unicamp implementou medidas como a exigência de uma autodeclaração na inscrição e o envio de um relato de vida, onde os candidatos devem descrever seu processo de afirmação de identidade de gênero. Esses relatos serão avaliados por uma comissão composta por pelo menos uma pessoa trans, travesti ou não-binária, unindo experiência de vida e critérios acadêmicos na análise das candidaturas.
Freitas Neto esclareceu que o foco não será na qualidade literária do relato, mas sim na integridade do processo. Isso implica que, caso um candidato faça uma declaração falsa, pode ter sua matrícula cancelada, revelando assim um compromisso institucional com a veracidade e a ética nas relações acadêmicas. A universidade, portanto, cria uma estrutura que não apenas acolhe mas respeita os indivíduos em suas diversas identidades, garantindo autonomia e dignidade durante todo o processo de seleção.
A importância do apoio informático
Com o aumento da visibilidade e do apoio social pela comunidade LGBTQIA+, é crucial entender que a existência de estruturas de apoio e acompanhamento dentro das universidades se faz necessária. Essa afirmação é verdadeira não apenas no campo acadêmico, mas também nas ações de suporte psicológico e emocional, que são vitais para qualquer estudante, principalmente aqueles que historicamente enfrentam discriminação e exclusão como as pessoas trans.
Uma Universidade Mais Inclusiva e Plural
A ideia da inclusão na Unicamp não se restringe apenas às cotas para a população trans. Há uma política mais ampla de ações afirmativas para candidatos provenientes de diversas origens, como estudantes de escolas públicas e candidatos negros e pardos. Essa diversidade é um ativo para a universidade, pois promove uma rica troca entre culturas e experiências diferentes que refletem a pluralidade da sociedade brasileira.
Com a aprovação das cotas trans, a Unicamp se posiciona como exemplo a ser seguido, promovendo a inclusão em um cenário nacional onde o preconceito ainda é prevalente. É imperativo que outras instituições de ensino superior sigam o mesmo caminho, garantindo que seus processos de seleção sejam representativos e respeitosos, adequando-se às expectativas da sociedade contemporânea.
A experiência da Unicamp ainda ressalta um ponto importante: a importância do conhecimento acadêmico em relação às questões de gênero e identidade. Além de garantir o acesso, é necessário que a faculdade ofereça ambientes e espaços de discussão que desmistifiquem e ensinem sobre essas identidades, ajudando a reduzir o preconceito e promover a empatia.
Considerações Finais
A implementação de cotas para pessoas trans na Unicamp representa não apenas uma mudança na política de admissão, mas uma transformação na cultura educacional do Brasil. É um passo significativo para a inclusão e reconhecimento da diversidade que vai muito além da normalidade do cotidiano acadêmico. Quebrar fronteiras implica em termos discussões mais abertas e espaços inclusivos em todos os níveis de ensino.
As universidades devem entender que essa mudança não é apenas um ajuste em seus editais, mas um compromisso maior com o bem-estar e a cidadania de seus alunos. Para garantir uma educação de qualidade, é essencial abraçar a diversidade e continuar a promover ambientes inclusivos e respeitosos para todos.
Espera-se que a experiência da Unicamp não apenas inspire outras instituições a adotar políticas similares, mas também inicie diálogos sobre a real necessidade de uma educação que receba a todos, independentemente de suas identidades de gênero ou origens sociais. Ao promover espaços inclusivos, as universidades têm a chance de formar cidadãos mais conscientes, respeitosos e capazes de lidar com a diversidade em suas vidas e carreiras.
