Em um mundo em rápida transformação, como a educação médica no Brasil se ajusta às novas realidades e necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS)? A recente divulgação dos gabaritos preliminares do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025 trouxe à tona questões cruciais sobre o futuro dos médicos em formação e a qualidade da educação que recebem.

Entendendo a Nova Estrutura do Enamed

O Enamed, realizado pelo Inep, surgiu da fusão de dois exames anteriores: o Enade, que analisava a qualidade dos cursos de graduação, e o Enare, que avaliava candidatos a programas de residência médica. Com essa integração, todos os alunos de medicina precisam realizar essa prova, que não apenas avalia o desempenho acadêmico, mas também serve como critério para seleção em residências. Isso cria um ciclo virtuoso, aumentando a importância do exame e, consequentemente, a qualidade da formação médica no Brasil.

A primeira prova do Enamed ocorreu no dia 19 de outubro de 2025 e, com a sua estrutura composta por questões de múltipla escolha e questionários obrigatórios, a nova avaliação visa fornecer uma visão abrangente da formação dos estudantes. Além disso, a metodologia de escalas de desempenho é uma inovação significativa, permitindo que o MEC monitore e avalie a eficiência das instituições de ensino superior.

Mas o que significa essa avaliação aprimorada para os futuros médicos? Em um contexto onde o SUS enfrenta desafios imensos, uma formação de qualidade é essencial para garantir que novos médicos estejam preparados para atender as demandas do sistema de saúde. Esta mudança não é apenas técnica, mas reflete uma nova filosofia educacional que prioriza o aprendizado ativo e a aplicação do conhecimento em cenários práticos.

Os gabaritos preliminares do Enamed 2025 foram divulgados em 22 de outubro, e o gabarito definitivo será apresentado em 5 de dezembro. Os alunos têm até 27 de outubro para contestar os gabaritos preliminares, um passo importante para garantir a equidade no processo de avaliação.

O Desafio da Formação Médica no Brasil

Historicamente, a formação médica no Brasil tem sido criticada por sua estrutura tradicional e pela desconexão com a realidade do SUS. O Enamed promete abordar algumas dessas questões, mas o que mais precisa ser feito para garantir que os médicos formados realmente atendam às necessidades da população?

Além da avaliação, é crucial que as escolas de medicina adotem um currículo mais integrado, que inclua maior contato com a comunidade e a prática em serviços de saúde pública. Isso não só aprimora a formação técnica, como também desenvolve a empatia e a sensibilidade dos futuros médicos em relação aos pacientes. Os estudantes devem ser incentivados a se envolver em estágios e projetos sociais que os conectem à realidade do SUS, permitindo que entendam melhor os desafios enfrentados por seus futuros pacientes.

A formação centrada no aluno e a adoção de metodologias ativas, tais como a resolução de problemas e o ensino baseado em casos, são altamente eficazes. Estas abordagens têm se tornado cada vez mais populares e essenciais para o desenvolvimento de habilidades críticas e a aplicação do conhecimento em situações do dia a dia.

Outro aspecto importante a ser considerado é a saúde mental dos estudantes de medicina. O estresse de um curso intensivo e a pressão para serem bem-sucedidos podem levar a altas taxas de esgotamento. É fundamental que as instituições ofereçam suporte psicológico e promovam um ambiente saudável e colaborativo, onde os alunos possam expressar suas preocupações e aprender a lidar com os desafios de sua futura profession.

Reflexões sobre o Futuro da Medicina no Brasil

O Enamed representa um passo importante na direção certa, mas ele é apenas uma parte de um quebra-cabeça muito maior. O Brasil precisa de médicos não apenas tecnicamente competentes, mas também humanos, empáticos e com uma compreensão profunda dos desafios enfrentados pelas comunidades que atendem.

A implementação de uma avaliação mais integrada é um movimento positivo, mas deve ser complementado por uma reforma curricular nas escolas de medicina e um compromisso com a formação contínua pós-graduada dos médicos. O futuro da medicina no Brasil não pode ser pensado isoladamente; precisamos estruturar uma rede de ensino que reflita as necessidades de saúde da população e promova a equidade no acesso à saúde.

É essencial que todos os atores envolvidos — desde instituições de ensino, órgãos reguladores até a comunidade médica — trabalhem juntos para criar um ambiente de aprendizado que priorize não apenas a nota, mas a formação integral do médico. Isso inclui uma abordagem pedagógica que valorize a saúde pública e a atuação nos serviços comunitários, que, afinal, é onde a maioria dos brasileiros acessa serviços de saúde.

À medida que o Brasil enfrenta novos desafios na saúde, a forma como formamos nossos médicos será vital para garantir um SUS que funcione. O Enamed pode ser o início de uma nova era na medicina brasileira, mas o verdadeiro impacto dependerá de nossa capacidade de inovar e adaptar a educação médica a um mundo em constante mudança.