O que acontece com os sonhos acadêmicos de um estudante quando ele se depara com a dura realidade do ensino superior? Com dados alarmantes acerca da evasão, é urgente revisitar essa questão. Em um Brasil onde os níveis de desistência no primeiro ano atingem 25%, e apenas 38% dos estudantes conseguem concluir sua graduação no tempo previsto, nós nos perguntamos: onde está o erro?
A Evasão no Ensino Superior Brasileiro: Um Desafio Crônico
A evasão escolar não é um fato isolado, mas um reflexo de diversas camadas da realidade educacional brasileira. O relatório ‘Education at a Glance’ da OCDE revela um cenário desolador: enquanto 13% dos estudantes da OCDE abandonam suas graduações no primeiro ano, no Brasil esse número salta para 25%. Além disso, é previsto que 51% dos alunos que iniciaram sua graduação em 2021 não estarão formados em 2027. Isso coloca o Brasil em uma posição preocupante em comparação a países com altos índices de desenvolvimento humano.
Fatores Contribuintes para a Evasão
Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), apresenta três fatores cruciais para entender essa evasão: qualidade da educação básica, fatores financeiros e falta de perspectivas. Ao examinar estes elementos, podemos compreender melhor a complexidade envolvida.
- Qualidade da Educação Básica: Muitos estudantes ingressam nas universidades com lacunas significativas em seu aprendizado, resultado de uma educação básica deficiente. Essa lacuna deixa os alunos despreparados para os desafios da graduação, levando à frustração e, consequentemente, ao abandono.
- Fatores Financeiros: O ensino superior no Brasil, em sua maioria, é oferecido por instituições privadas. A dificuldade em arcar com esses custos, acompanhada da falta de oportunidade de trabalho durante os estudos, intensifica a evasão. Muitos percebem que precisam priorizar a renda imediata em vez da formação a longo prazo.
- Falta de Perspectivas: Com um mercado de trabalho saturado de profissionais subqualificados e a percepção de que muitos cursos não oferecem um retorno financeiro adequado, muitos jovens desistem. A insegurança quanto ao futuro profissional se torna um forte desestímulo.
Estes fatores são interligados e se retroalimentam. A baixa taxa de conclusão se alimenta da falta de qualidade no ensino básico, levando a uma frustração generalizada e a uma percepção negativa do valor do diploma.
Outros Aspectos Influentes
Além dos fatores já mencionados, outras hipóteses levantadas por especialistas também oferecem uma nova perspectiva sobre a evasão no Brasil. Claudia Costin, especialista em políticas educacionais, sugere que a universalização tardia da educação básica é uma questão a ser considerada. Alunos que são a primeira geração de suas famílias a frequentar a universidade enfrentam desafios adicionais de engajamento e adaptação.
- Escolha Precoce do Curso: A pressão para escolher e se comprometer com uma carreira muito cedo pode levar estudantes a fazerem escolhas infelizes, resultando em desinteresse e desistência.
- Opções Menos Concorridas: A escolha de cursos menos competitivos, não por vocação, mas por facilidade de acesso, frequentemente coloca alunos em trajetórias que não os motivam, aumentando a probabilidade de evasão.
- Desigualdade de Gênero: Enquanto as mulheres têm maior probabilidade de concluir a graduação, elas também são mais impactadas pela taxa de jovens “Nem-Nem” (que não estudam nem trabalham), muitas vezes devido a responsabilidades familiares, como cuidado de crianças.
Além disso, a realidade financeira e cultural enfrenta um grande abismo em relação a países da OCDE, onde as taxas de conclusão e retenção são significativamente mais elevadas. O relatório revela que apenas 24% dos jovens adultos entre 25 e 34 anos no Brasil possuem ensino superior completo, uma comparação desfavorável em relação aos 49% dos países da OCDE.
Um Olhar além do Abandono: O Futuro dos Estudantes
O fenômeno da evasão traz à tona discussões urgentes sobre as expectativas e a realidade enfrentada pelos estudantes. As instituições de ensino precisam atuar com proatividade em relação a este problema. Sugestões de aprimoramento incluem a oferta de orientação profissional eficaz e a implementação de programas de suporte para calouros, que podem contribuir para aumentar a retenção e a satisfação dos alunos.
Além disso, repensar a forma como educamos e preparamos os alunos para transições importantes, como a de ensino médio para a universidade, pode ser um passo crucial. A relação entre a educação básica e superior deve ser mais integrada, promovendo um aprendizado contínuo e uma preparação adequada para a vida acadêmica.
Diante do cenário que se apresenta, energias coletivas pela mudança são mais necessárias do que nunca. A educação deve ser vista como um investimento e não apenas como um custo a ser evitado. Através de uma combinação de maior investimento em qualificação docente e apoio direto aos alunos, podemos virar essa chave e mudar a trajetória educacional do Brasil.
Reflexões Finais: O Papel da Sociedade e do Estado
A evasão no ensino superior é um desafio a ser enfrentado de maneira coletiva. Usuários do sistema educacional, incluindo os estudantes, pais, educadores e o governo, têm sua parte a desempenhar. É preciso uma reavaliação contínua das práticas educacionais, assim como um diálogo aberto sobre as realidades enfrentadas pelos alunos. Somente assim podemos criar um espaço de aprendizado que realmente prepare nossos jovens para o futuro.
Termos como “qualidade de ensino”, “acessibilidade” e “oportunidade” não devem ser meros slogans, mas valores fundamentais que guiem as ações em todos os níveis do sistema educacional. É na construção desta realidade que conseguiremos não apenas reduzir a evasão, mas transformar a educação em um verdadeiro motor de mobilidade social e inclusão.
A luta contra a evasão no ensino superior deve ser uma prioridade nacional, onde cada passo em direção à melhoria da educação traz consigo a promessa de um futuro melhor para o Brasil e seus cidadãos.
