Os Desafios do Setor de Mel Catarinense em Tempos de Tarifas

Você sabia que um simples frasco de mel pode representar muito mais do que um sabor adocicado? Para muitos produtores no Brasil, especialmente em Santa Catarina, o mel é um símbolo de trabalho árduo e paixão. Porém, recentemente, esses produtores enfrentaram desafios sem precedentes, particularmente devido à imposição de tarifas comerciais pelo governo dos Estados Unidos.

O impacto do tarifaço no setor do mel

O setor de apicultura em Santa Catarina sempre se destacou pela qualidade de seus produtos, sendo responsável por uma significativa parte das exportações de mel brasileiras. Empreendimentos como a Apis Nativa, localizada em Araranguá, têm conquistado reconhecimento internacional, incluindo a medalha de ouro no Paris International Honey Awards em 2025. No entanto, o recente aumento das tarifas sobre produtos brasileiros, que chegou a ser superior a 27% nos Estados Unidos, abalaram as bases desse setor.

Tarciano Santos da Silva, director da Apis Nativa, relatou que sua empresa teve vários embarques cancelados e contêineres parados nos portos. O cenário é alarmante: os frutos do trabalho de diversos apicultores estão comprometidos, pois a renegociação de preços torna-se uma tarefa desafiadora com o aumento das tarifas e a queda na demanda por produtos a preços competitivos.

As tarifas não apenas impactam o preço final do mel, mas também o processo de produção. Com a matéria-prima escasseando, as empresas precisam repensar suas estratégias. Como observou Tarciano, “nossa matéria-prima está chegando ao final” e, diante dessa realidade, a Itália pondera sobre a manutenção de suas fábricas e o futuro de seus negócios.

Em um estado onde mais de 80% do mel produzido é destinado ao mercado americano, a situação é ainda mais preocupante. A necessidade de renegociar contratos e preços se tornou uma constante para os produtores locais, que se veem obrigados a baixar preços diante da pressão externa. O diretor de outra empresa, Guilherme Castagna, enfatizou que o preço do mel já passou de R$ 3,50 para R$ 3,30, insinuando uma tendência de desvalorização que pode afetar a sustentabilidade do setor.

A resiliência e a adaptação do setor apícola

Apesar do cenário desafiador, o setor de apicultura em Santa Catarina não se rendeu facilmente. Os apicultores estão buscando alternativas para suavizar os impactos dessa crise. A ABEMEL, a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel, tem trabalhado incansavelmente para promover o mel brasileiro internacionalmente, reforçando a qualidade e a tradição que o cercam. De acordo com Renato Azevedo, presidente da ABEMEL, o Brasil é hoje um dos cinco maiores exportadores de mel do mundo, com os Estados Unidos como seu principal mercado, e mesmo assim, os efeitos das tarifas têm o potencial de redefinir esse panorama.

A situação atual traz à tona uma questão crítica: como os produtos brasileiros podem continuar a ser competitivos frente a tarifas tão altas? A resposta pode residir na diversificação dos mercados de exportação. Embora o mercado americano represente a maior fatia das exportações, a abertura de novas oportunidades em outros países pode ser uma estratégia viável para mitigar os riscos e depender menos de um único mercado.

Ademais, a inovação em técnicas de produção e embalagem pode valorizar ainda mais o mel catarinense, destacando sua qualidade superior e suas características únicas. A busca por certificações e prêmios internacionais, como o já conquistado em Paris, também pode abrir portas e elevar a visibilidade do produto.

Outra estratégia possível é a aproximação entre apicultores e consumidores locais. A construção de uma rede de venda direta pode não só aumentar as margens de lucro dos apicultores mas também oferecer um produto fresco e de qualidade aos consumidores, promovendo uma conexão mais forte com o público.

O futuro da apicultura catarinense dependerá, em última análise, da capacidade de adaptação a esse novo cenário. A busca por soluções inovadoras e um diálogo contínuo com as autoridades regulamentadoras e o mercado externo será essencial para a sobrevivência e o crescimento desse setor vital para a economia local.

Reflexões sobre o futuro da apicultura em tempos de crise

A crise tarifária enfrentada pelos produtores de mel catarinenses destaca uma realidade que muitos setores da economia enfrentam na atualidade: a interdependência global e a vulnerabilidade frente a políticas comerciais. O que deveria ser uma celebração pelo reconhecimento internacional do mel brasileiro transformou-se em preocupação pela sustentabilidade de muitos negócios.

Esses desafios nos fazem refletir sobre a importância de políticas comerciais mais justas e equilibradas, que considerem não apenas a proteção de mercados, mas também o respeito à produção local e aos produtores menores. Os apicultores esperam, assim, que as vozes das diversas comunidades rurais sejam ouvidas em discussões sobre tarifas e comércio internacional.

Além disso, promove-se um aprendizado valioso: a necessidade de diversificação e resiliência. As crises estão sempre à espreita, e, assim como as abelhas se adaptam ao ambiente, as empresas também devem buscar formas de se reinventar e se fortalecer através da colaboração e inovação.

O setor de apicultura catarinense pode muito bem servir como modelo a ser seguido, onde cada desafio pode ser visto como uma oportunidade para aprendizado e crescimento. Através da união, inovação e compreensão das exigências do mercado internacional, o mel catarinense pode continuar a brilhar, mesmo em tempos de crise.