Você já parou para pensar como a forma como nos dirigimos aos idosos pode impactar suas vidas? Apesar de nossas intenções muitas vezes serem boas, a maneira como falamos com pessoas mais velhas pode refletir estereótipos prejudiciais e perpetuar o etarismo, que é a discriminação com base na idade. Este fenômeno, frequentemente invisível, pode afetar não apenas a saúde mental e emocional dos indivíduos, mas também as dinâmicas de cuidado e apoio.
A Linguagem Infantilizada e Seus Efeitos
Estudos demonstram que a linguagem infantilizada, como chamar um idoso de “docinho” ou “vovô”, tem explorações psicológicas profundas que precisam ser consideradas. Quando cuidadores ou familiares utilizam uma comunicação que remete à infância, acabam por invalidar a história e a voz da pessoa idosa, como se esta tivesse literalmente “perdido” sua identidade e capacidades. A infantilização é um tipo de etarismo que, mesmo que involuntário, pode ser profundamente desrespeitoso e alienante.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Iowa e pela Universidade do Kansas analisou interações entre cuidadores e idosos em instituições de longa permanência. O que se observou é que em 84% dos casos a linguagem utilizada era claramente infantilizada. Essa diminuição da lexicalidade e complexidade da comunicação tende a ser acompanhada por um tom de voz mais alto e frases mais curtas, semelhante ao que se usaria com crianças, mas que se revela inibidor para os idosos, que muitas vezes desejam ser tratados com respeito e dignidade.
Esse tipo de comunicação, que parece ter como objetivo ser gentil, na verdade pode gerar reações adversas, como resistências e até agressões. Muitos idosos se sentem incomodados com essa abordagem, levando a comportamentos de resistência, como gritar ou afastar-se dos cuidadores. Tais comportamentos, muitas vezes mal interpretados, são na verdade manifestações de uma comunicação insatisfatória.
Desconstruindo o Estigma e Mudando a Narrativa
Iniciativas como o programa “Mudança de linguagem” (Changing talk online training – CHATO) estão sendo implementadas para remodelar essa interação. O treinamento se concentra em reconhecer e superar barreiras na comunicação com idosos, e os resultados têm sido encorajadores. Ao promover uma linguagem mais respeitosa e que reconheça a autonomia do idoso, as métricas mostram uma diminuição significativa de comportamentos resistentes. Além disso, houve uma redução no uso de medicamentos antipsicóticos, sugerindo que uma comunicação apropriada pode colaborar com melhores práticas de cuidado.
Neste contexto, um aspecto importante a se considerar é a falácia de que todos os idosos sofrem de demência e necessitam de cuidados constantes. De acordo com dados, cerca de 90% dos idosos em instituições apresentam algum sinal de demência, mas isso não significa que todos precisam ser tratados como crianças. O reconhecimento da individualidade e das necessidades específicas de cada idoso deve ser um compromisso dos cuidadores e familiares que atuam nessa área.
É fundamental abordar a questão do etarismo não apenas como um problema de linguagem, mas também como uma parte de uma estrutura cultural que marginaliza os idosos. A linguagem influencia como pensamos e interagimos, moldando a percepção pública sobre a velhice e os que nela habitam. O desafio está em como podemos transformar essa narrativa a fim de promover um envelhecimento digno.
Refletindo Sobre Nossas Ações
Ao refletirmos sobre a forma como nos dirigimos aos mais velhos, somos convidados a considerar a nossa própria percepção sobre a velhice. A cultura da juventude prevalece, mas é vital reconhecer que o envelhecimento é uma parte natural e inescapável da vida, devendo ser celebrado em vez de stigmatisado. Podemos mudar isso ao nos engajar em conversas que valorizem as contribuições dos idosos e reconheçam suas histórias e experiências.
As iniciativas de comunicação respeitosa com os idosos, como aquelas promovidas pelo CHATO, são um passo significativo, mas mudar mentalidades exige tempo e esforço coletivo. A educação sobre etarismo deve ser incorporada em currículos escolares, treinamentos de cuidadores e campanhas de conscientização pública. Ao incutir práticas de respeito e dignidade no trato com a velhice, podemos ajudar a apagar estigmas e construir sociedades mais inclusivas.
Convidamos todos a refletir: como podemos contribuir para que os idosos sejam vistos e tratados de maneira justa e digna? A transformação começa com cada um de nós ao reconsiderar a linguagem que usamos, o respeito que oferecemos e a empatia que dedicamos a essas vidas que, muitas vezes, guardam sabedoria inestimável e experiências ricas.
Conclusão
A transformação do discurso e a desconstrução dos estereótipos sobre a velhice são cruciais para criar uma sociedade mais inclusiva e adequada a todas as idades. A maneira como comunicamos e interagimos com os idosos tem um impacto significativo em suas vidas, refletindo não apenas nossas intenções, mas também nossas crenças mais profundas sobre o envelhecimento.
Com as ferramentas corretas e a disposição para mudar, podemos reverter a infantilização e promover uma comunicação que revaloriza os idosos e suas experiências. O respeito pelas histórias de vida dos idosos não deve ser uma exceção, mas a norma. A mudança começa agora, nas pequenas interações diárias e nas escolhas que fazemos sobre como nos dirigir a eles.
